O terreno baldio, ‘le terrain vague’

O documentário Au Soleil même la nuit- Scènes d’accouchements de Éric Darmone Catherine Vilpoux  é um dos filmes mais instigantes que já tive o prazer de assistir em francês.  O documentário aborda o compromisso do Théàtre du Soleil em encontrar a forma teatral perfeita.  A companhia é filmada durante a produção de Tartufo (em francês Le Tartuffe) de Molière em  julho de 1995 para o Festival de Avingnon. Uma cena crucial no filme é quando a diretora  do Théàtre du Soleil,Ariane Mnouchkine, insastifeita com o atuação dos atores, reune o elenco  para partilhar o que sente:

Luzes, uma cortina, um tapete, um montão de máscaras, atores e nada de teatro. Alguém tem algo a dizer para nos ajudar?

Vocês entram no palco para atuar; não para refletir porque não atuaram. É para atuar. Não é para travar grandes discussões com seus atores e com suas atrizes. Deixem seus atores em paz. E que eles nos deixem em paz. Não adianta mergulhar em grandes análises. É preciso atuar quando se entra em cena. Não multipliquemos os problemas. Vocês estão aqui para isso. Para pôr uma máscara no rosto, um pedaço de figurino, entrar e atuar. Atuar como… Bom, vou tentar explicar…

Eu vi uma foto maravilhosa do Doisneau no outro dia, tão fantástica que pensei: ‘Preciso achá-la para vocês’. É uma foto de um terreno baldio. O que falta às crianças e aos jovens de hoje são terrenos baldios porque em um terreno baldio há justamente o aprendizado  da precisão da imaginação. O vazio exterior permite, eu tenho certeza, uma estruturação da imaginação. Não temos mais terrenos baldios. A  foto é de um terreno baldio e de crianças em cima de um carro velho. Há duas crianças em cima do capô do carro e outras no carro, mas as mais marcantes são as duas sobre o capô. Uma na frente do capô representa um cavaleiro, como Ricardo II, como Ben Hur ou Napoleão. E atrás do capô a criança mais nova faz o cocheiro. Parece Krishna ou Arjuna. É uma cena absolutamente prodigiosa. Mas elas não estavam lá para se falar, elas entraram no terreno baldio para representar. Vocês têm que entrar do mesmo jeito. O palco, no fundo é um terreno baldio sublime. É uma foto admirável. Para mim é o nascimento da criação. O nascimento da criatividade nos seres humanos e do teatro em particular. Agora, se vocês, que têm essa profissão, essa arte,  não conseguirem ter essa inocência e essa coragem, sim ,Rajissan estava certo e começarem a pensar: ‘Meu ato isso, minha prisão aquilo’. No fundo, sua prisão é pensar em sua prisão. Ok, vamos trabalhar.”

Qual interessante a relação física e alegórica entre um  terreno baldio, inocência,  coragem e imaginação.  Faz totalmente sentido atuar no teatro e na vida com a atitude simples e autêntica de uma criança que faz uso de um terreno baldio como um palco ou a realidade do dia-a-dia sem grandes análises e complicações.

Robert Doisneau- la voiture fondue (1944)
Robert Doisneau- la voiture fondue (1944)
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